sexta-feira, 1 de maio de 2009

É mel e é doce

Billie Holiday - If you were mine



E eles foram viajar. Por certo, percorrer a estrada era buscar a mudança de cenário, deslocar-se no espaço em busca de novas imagens, olhos ávidos de beleza. Ao desembarcarem, o cenário era belo: árvores, cores, possibilidades. Compreendia prédios novos e antigos, um ambiente de convivência e de aprendizagem.

Havia ali prédios erguidos há muitos anos a exemplo de uma arquitetura de época, mesclados a construções modernas. Havia também a linha do trem, que com certeza, já transportou muitas histórias, muitas lendas, muitas pessoas, num incansável vai-e-vem.

A primeira vez em que o viu, estavam à beira do lago. O olhar alerta, ao ultrapassar as quatro pilastras que ficavam bem na entrada, vislumbrou a bruma que envolvia aquelas águas e ia além. Noite fria, de lua crescente e linda. Ela desejou ter em mãos um equipamento para registrar a beleza, queria reter aquele momento: coisa de poeta, amém!

Contornando o lago, surpreendeu-se com pessoas e uma câmera fotográfica sobre um tripé, assemelhavam-se àquele tipo de pessoa louca que valorizava a beleza em estado bruto, que "pegava com mãos grandes" a vida que acontecia ali, solta. Debaixo da bruma, caminhara para casa, sentada na escada só cabia reflexão e encantamento, até o último trago do cigarro, naquela boca.

No dia seguinte na cidade, o quente daquele sol às pessoas agradecia, e naquele espaço de beleza, instalava-se o desejo e muita energia. As quatro pilastras já não eram obstáculos para o ir e vir, era um portal que as pessoas transcendiam rumo à vida, fora de seus lares, em busca da embriaguez naqueles aconchegantes bares.

Naquela noite, ouviram poesias, performances várias, até os cães latiam e de mão em mão a aguardente girava, para aquecer a sensação na pele, que era bem fria. Transportaram-se para outros ambientes, garrafas de vinho ou de cerveja, lugares quentes.

No fim da linha, congregaram-se ainda ouvindo Beatles, Creedence, Billie Holiday entregando-se ao reconhecimento. O inusitado daquelas caixas de som enormes e a embriaguez que tornava os rostos e as conversas disformes. Tudo alegria, muito álcool, sorrisos, anestesia! Ao voltarem para casa, já era alta a madrugada mas não havia bruma aquele dia.

O último dia ainda surpreenderia. Passearam pelo campus, observaram as árvores, as paisagens, aquela beleza veemente: cenários preservados, recantos verdes feitos para acalmar as gentes. Ela já sabia o que aconteceria, afinal, olhos ávidos de beleza, perscrutam com perspicácia as pessoas e os ambientes.

Completo sejogamento, diversão, contentamento. Todos naquele dia estavam prontos para um misterioso encantamento. Ninguém sabe como tudo aconteceu, o fato é que para se produzir conhecimento, era preciso curiosidade e sensibilidade, era preciso buscar o que sentiam, o que era desejo de verdade. Prontos mais ainda para vivencia-lo, não houve hesitação nem embate, apenas o encontro e o estender das mãos de ambas as partes.

Ao amanhecer do dia, entre abraços quentes, beijos calientes, garrafas de vinho e uma já adiantada nostalgia, despertou com o toque quente, daquelas mãos na sua pela branca e macia. As marcas daqueles beijos, por algum tempo ela ainda carregaria. Pois, a força e o desejo dele, marcou-a profundamente nos lábios, que doíam.

Olhar de poeta ou de fotógrafo, ninguém entenderia. Só mesmo o que recortaram do mundo e daqueles dias. E ao dizer adeus, ambos de camisa verde, ela com muita sede, nem imaginaria o que aqueles olhos clínicos enxergariam. Mas, aquelas fotos à beira do lago, retendo o encantamento eram tudo o que valia. Viajando de volta para casa, sentiu um gosto doce na boca, putz, o gosto da alegria! :)




(Foto: Frávio Carbonário http://www.flickr.com/photos/fravio23/)

10 comentários:

Isa disse...

Ah, que é isto Isa?
Não tem vergonha não?

Mário disse...

que lindo.
muito bom saber desse gosto bom na sua boca. que mais lhe oferte a vida!!!!!
o conhecimento deve ter esse sabor: curiosidade e sensibilidade.
e ela ia (...) mas pode mais, dona Tuda (...) ampliando essa vida, esse impulso no sejogamento, essa bela escrita.
gostei muito da mirada e de como registra o percebido, o sentido.
Um beijo!
Mário Cobra

Cris disse...

"putz, estava cheia de alegria!" "putz, estava cheia de alegria!"
"putz, estava cheia de alegria!"
putz... putz... putz...
que lindo isa! musa!
tem rítimo... leia ouvindo esse som aqui(http://www.myspace.com/djrogerdee) na música oryp...
que gozo com a palavra q vc me deu hoje de manhã!
bjo virtual!

Caju disse...

Mais uma vez te digo.....o texto tá muito bom.....escreve seu livro logo. Tenho um tema que acho que voce vai gostar. Beijos.

Flávio Al. disse...

Caracas....................
Isa, falou e fez.
Por isso a vida deve ser vivida com muita intensidade, calor e emoções.
Palavras fortes, sentimentos,desejos, tudo se mistura em noites frias e longínquas.
Que inspiração é essa?
Hum eu sei.
Parabéns e continue assim
abraços

Patrickíssimo disse...

Felicidade se acha é em horinhas de descuido: Guimarães Rosa.

Você se descuidou Isa?

Ah, que é isto Isa?
Não tem vergonha não?

Estive por aqui.

Isa disse...

É, Sr. Patrick, eu tenho vergonha só depois da embriaguez, nem é vergonha, é timidez.
Porém sem entorpecimento,
sejogamento,não há descuido, não há prazer.Então o jeito é arriscar-se a ser feliz, hã?

No fim, penso muito no Raulzito: "Os homens passam as músicas ficam."

Marcos de Faria disse...

Lindo, e com uma marca de sejogação.
Beijos

Jana. disse...

tô de cara.
cacete isso, Isa.
Oo

Carmen Calderón disse...

Ah, Isa amada, sua Dulce visita me trouxe de bandeja ao seu apetitoso e Dulce blog! Agora sou uma menina-porca e feliz, com direito à maçã na boca e tudo!